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Vamos começar com o pé direito!

Ruan Bueno07 de janeiro de 2026· 3 min de leitura· 3 views
Vamos começar com o pé direito!

A campanha de fim de ano da Havaianas conseguiu um feito raro: transformar um chinelo de borracha em munição de guerra cultural.

No vídeo, Fernanda Torres solta um trocadilho simples, quase ingênuo:

“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito.
O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés.”

Fim.
Não tem partido. Não tem voto. Não tem ideologia.
Mas no Brasil de hoje, até chinelo tem lado político.


Quando marketing vira teste de Rorschach

A mensagem era clara: menos superstição, mais atitude.
Só que a escolha da porta-voz mudou tudo.

Fernanda Torres não é “apenas” uma atriz. Ela carrega repertório, discurso, histórico. E, para uma parcela do público, isso basta pra transformar um comercial de réveillon em panfleto ideológico.

Resultado?

  • Boicotes improvisados
  • Vídeos jogando Havaianas no lixo
  • Hashtags pedindo cancelamento
  • Deputados recomendando comprar “chinelo patriota”

Tudo isso sem a marca dizer absolutamente nada de político.

Marketing não intencional no seu estado mais puro.


O efeito colateral da polarização

A Havaianas sempre foi uma marca transversal.
Rico, pobre, esquerda, direita, praia, favela, aeroporto, churrasco, réveillon.

Agora, por acidente (ou ingenuidade estratégica), entrou no ringue ideológico.

E aqui está o ponto crítico:
não importa a intenção da marca, importa a leitura do público.

Em tempos normais, esse comercial passaria batido.
Em tempos de polarização extrema, vira manchete, queda de ação e tese no Twitter.


O silêncio como estratégia (ou fuga)

A Alpargatas escolheu não responder.
Nem pedido de desculpa, nem defesa, nem nota institucional.

Silêncio absoluto.

Do ponto de vista de branding, isso tem dois lados:

  • ✅ Evita inflar ainda mais a polêmica
  • ❌ Deixa o discurso ser sequestrado por terceiros

Enquanto isso, a marca ganha algo que dinheiro nenhum compra: atenção massiva, orgânica e gratuita.

O problema é que atenção não vem com manual de instrução.


Marketing não intencional: jackpot ou armadilha?

Esse caso vai direto para os livros de marketing.

A campanha não tentou lacrar.
Não tentou militar.
Não tentou provocar.

Mas provocou.

E isso mostra uma verdade desconfortável:

Hoje, qualquer campanha é política por default, mesmo quando não quer ser.

A pergunta que fica para marcas e startups é simples e cruel:

Você está preparado para o que o público vai projetar em cima do seu produto?


O risco real para a marca

A curto prazo:

  • Queda pontual nas ações
  • Barulho nas redes
  • Boicotes barulhentos (e geralmente efêmeros)

A médio prazo:

  • Segmentação ideológica forçada
  • Parte do público se afastando
  • Outra parte defendendo com ainda mais força

A Havaianas pode sair maior disso tudo.
Mas também pode perder o que sempre teve de mais valioso:
ser consenso cultural.


A lição (que dói)

Não foi erro criativo.
Foi erro de contexto.

Em 2025, branding exige leitura política do ambiente — mesmo quando você não quer fazer política.

Porque hoje, meu amigo,
não existe mais produto neutro.

Nem chinelo.

Vamos começar com o pé direito! · Blog · Ruan Bueno