Em três anos acumulei mais de 60 projetos no meu repo. Publiquei três. Arquivei os três.
Tchê Pedidos, Ethos e MarcaAI. Nenhum deles morreu por causa de código.
Essa é a parte que demorei para aceitar. Eu procurava o erro na arquitetura, na stack, na infra, nas features que faltavam. O erro nunca esteve lá. Estava sempre uma camada acima, justamente na parte que eu não estudava: mercado.
E tem uma progressão nisso. Cada produto errou mais perto do mercado do que o anterior. No primeiro eu não lancei. No segundo eu lancei sem destino. No terceiro eu lancei para quem não paga.
Tchê Pedidos: o erro de não lançar
Há três anos eu estava terminando o curso técnico. Na minha cidade tinha um movimento claro: estabelecimentos ainda sem cardápio digital, e os que tinham usavam soluções com pouquíssima customização, sistemas falhos, bugs e application error na tela do cliente.
Construí um sistema que entregava o que as empresas insurgentes entregavam. Sozinho, com muita gambiarra para funcionar. Até cheguei a validar com um empreendimento local, mas não lancei.
O motivo que eu contava para mim mesmo era uma pilha: não sou competitivo o suficiente na cidade, não tenho time de suporte, não tenho infra para escalar. O motivo real era mais simples. Sistema, suporte e trabalho final por R$ 59,90, feito por uma pessoa só, parecia trabalho de graça pago com incerteza kkkkkkk.
Um ano depois eu voltei para olhar o mercado. As insurgentes já estavam consolidadas em vários estabelecimentos, com custo benefício alto demais para alguém trocar por uma solução amadora.
Teria dado certo? Provavelmente não. Faltava maturidade de negócio, de mundo corporativo, de estrutura de software, de infra. Mas isso é confortável demais, porque nunca foi testada. O timing que existia naquele ano não existia no seguinte.
Ethos: o erro de construir sem destino
Depois do primeiro fracasso fui buscar freela. Peguei alguns bem breves, basicamente landing pages.
Aí apareceu um problema que era exclusivamente meu: "eu não vou pagar por uma solução que eu mesmo posso desenvolver". péssimo.
Foi exatamente assim que nasceu o Ethos.
Eu queria gerenciar meu tempo por projeto, orçar com base em predefinições, cadastrar novos serviços, exportar OS, exportar orçamento e ver tudo em kanban e em lista.
Fiz quatro versões. Cada uma com mais feats que a anterior. IA embarcada, workspaces, login por empresa, PBAC, gestão de clientes, kanban, emissão de OS.
Isoladamente, cada feature fazia sentido. Juntas viraram um frankenstein. Faltava destino.
E teve o golpe final: eu parei de fazer freela. O único usuário previsto do sistema perdeu a dor que o sistema resolvia.
Aqui não faltou timing nem infra. Faltou validação e objetivo.
Mais um projeto para o archived do GitHub.
MarcaAI: o erro de escolher o público errado
Esse foi o maior aprendizado dos três.
Começou com uma necessidade real. Um amigo trouxe um cliente dele que queria gerenciar agendamentos em plataforma própria, a baixo custo. Ele não cobraria implantação e a gente dividiria a mensalidade 50/50. Fizemos várias reuniões e entendemos que ele queria um ecossistema de anúncios dentro da própria plataforma.
Na mesma época descobrimos um caminho para colocar IA fazendo agendamento pelo WhatsApp. Precisava de infra, mas dava para começar sem investimento grande.
Aí o cliente não fechou. E em vez de parar, a gente olhou para o mercado aberto e continuou.
O que entregamos depois disso:
- Gestão de anúncios
- Customização alta de página web
- IA embarcada no WhatsApp, com API não oficial e com API oficial
- Assinaturas e planos com uso permissionado
- Gestão de equipe com comissão por corte altamente customizável
- Horários e funcionários geridos individualmente
- Templates de página
- Dashboard customizável estilo Power BI
Levantei infra própria para rodar 24/7 o servidor da API não oficial do WhatsApp. Estruturei formas mais rápidas do agente responder, injeção de contexto, RAG, MAG e graphs por empresa.
Mais de 400 horas nos últimos dois anos, tranquilamente.
O app está no ar há sete meses. Nenhum cliente. Em regiões que eu mesmo tinha escolhido como estratégicas.
A ficha caiu vendo anúncio no Instagram. Plataformas muito parecidas com a minha, com MUITA CARA de IA (não é hipocrisia, eu sei o que tem dentro do meu app kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk), vendendo.
Isso me obrigou a repensar o significado de esforço. Quem ganha no mercado, quem tem o melhor produto ou quem tem o melhor marketing de produto? Quem entrega melhor ou quem vende mais barato?
E aí veio a parte que dói:
O esforço para construir é o mesmo nos dois públicos. O que muda é quem enxerga valor no que foi construído.
Se eu tivesse focado em redes de barbearias em vez de barbearia solo, o mesmo sistema teria outro destino. Rede tem várias unidades, precisa de padronização, tem operação para gerir e tem orçamento. Eu revenderia o app em vez de disputar preço com ele.
Duas coisas que eu levo daqui.
Distribuir a R$ 60 é preço sobre produto, não valo que o cliente recebe e que preço baixo não convence quem ainda não viu valor, só reduz a margem pra explicar!
Distribuição não é a etapa que vem depois do produto. Ela é parte do produto.
O padrão
Ler os três em sequência é desconfortável, porque o erro vai subindo de camada.
No Tchê Pedidos eu tinha produto e não lancei. No Ethos eu lancei e não tinha objetivo. No MarcaAI eu tinha produto, objetivo e infra, e escolhi o público errado.
Nenhum dos três problemas foi técnico. Tecnicamente, os três funcionavam.
O que fica então é:
- Produto não lançado não gera aprendizado.
- Feature nova não substitui objetivo. Sem saber para quem, mais feats só aumenta o salto do erro.
- A sua própria dor é o pior cliente inicial, porque ela muda quando a sua rotina muda.
- Público que não percebe valor não compra por preço baixo, só te deixa mais barato.
Fechamento
Nesses três anos colhi muito das três aplicações, tanto tecnicamente quanto de negócio. Isso aqui não é reclamação. É uma trilha de três anos, concisa em uma postagem, para mostrar que está tudo bem tentar, errar e tentar de novo.
Obrigado pela leitura.